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sábado, 14 de agosto de 2010

Menina

Menina


Para a menina que conheci bem de longe, ela para mim anônima,

uma estranha sem nome que vive a desgraça de um povo da qual faço parte.


Me tocou nascer nessa esquina do fim do mundo chamada miséria

me cabe ser aquela que vale menos que a moral dos imorais

sou uma pedra nascida dessa cidade, cidade que não é mais do que muitas solidões juntas

para mim nem essa solidão me cabe, pois desse emaranho de cimento e de metal vivo à margem.


Sou febre ardente de uma doença senil

sou a ferida aberta das pernas de meu povo

sou a inconsciência dos loucos


Nas trincheiras onde perco minhas batalhas não existe sangue

nas trincheiras onde perco minha inocência não existe amor

rasgo minhas mãos buscando o alimento que me trará a paz

rasgo minhas mãos em quanto busco no lixo aquilo que não tenho

vago pelas ruas desertas em quanto a cidade dorme

pela manhã me escondo pois não sou bem-vinda


Levo o tapa na cara e me concentro em em mim para viver

sou aquela que é menos que tudo

uma menina que não e mulher

negra escrava e menina

busco no lixo o que não tenho

dou de mim o que me resta que é meu corpo

pois não sou nada e ninguém notará se eu morrer


Se eu morrer eu não vou ser notícia no jornal

se eu morrer não haverá enterro

meu corpo apodrecera nesse lugar

não haverá lembranças que existi

sera como se eu jamais tivesse existido


Toda noite entrego meu corpo

morro toda noite

sou aquela que vale menos que a moral dos imorais


Sou a imoralidade do seu sono no travesseiro

sou o fruto da inércia

sou a ferida dos olhos dos que não querem ver

é mais fácil fingir que eu não existo


Essa noite venderei meu corpo

numa rua

venderei meus 15 anos

haverá quem compre

toda noite há um lobo que vive nesse emaranhado de desgraças e cimento


Me tocou nascer nessa esquina do fim do mundo chamada Brasil

me tocou ver meu corpo desde cedo, tendido nas trincheiras, trincheiras de uma guerra que luto mas sei que já perdi.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

NÓS, LATINOS-AMERICANOS



NÓS, LATINOS-AMERICANOS



Somos todos irmãos
mas não porque tenhamos
a mesma mãe e o mesmo pai:
temos é o mesmo parceiro
que nos trai.

Somos todos irmãos
não porque dividamos
o mesmo teto e a mesma mesa:
divisamos a mesma espada
sobre nossa cabeça.

Somos todos irmãos
não porque tenhamos
o mesmo berço, o mesmo sobrenome:
temos um mesmo trajeto
de sanha e fome.

Somos todos irmãos
não porque seja o mesmo sangue
que no corpo levamos:
o que é o mesmo é o modo
como o derramamos.

Ferreira Gullar

domingo, 8 de agosto de 2010

Pai, mão amiga, exemplo, herói da minha vida.



Como se pode começar a homenagear um pai, aquele que desde tão cedo na minha existência já me amava, aquele que sorriu como um bobo quando soube que ia ser papai.

Aquele que segurou o coração dentro do peito, suou frio e acabou ele apertando a mão da mãe na hora do parto, de tão nervoso. Pai é bem fácil reconhecer um quando se vê. Ele é aquele com cara de bobo quando vê uma realização do filho.

Ah meu pai, ele é aquele que faz qualquer coisa por um único sorriso meu, ele é quem me levou pra escola, que deu banho, que me trocou, me levou pro balé ou pro futebol, me deu a mão quando eu tinha medo, foi ele que me deu coragem para subir na bicicleta, e me deu força para levantar quando eu cai.

Ai ai pai, o que teria sido de mim sem seu apoio, sem seus conselhos, sem suas broncas, seus puxões de orelha, porque foi você que quando me viu indo em uma direção errada me aconselhou, até brigou comigo, talvez eu até posso ter sido rebelde mas sei que você sempre fez tudo pelo meu bem, ai de mim e de qualquer um que não escute a voz sabia de seu pai.

Você esteve comigo no dia do meu casamento, você esteve comigo no nascimento de meu filho, seu neto, você me aconselhou nos primeiros momentos dessa longa mas gratificante estrada em que eu acabava de ingressar, você esteve comigo em todas as fases de minha vida. Isso porque você é meu pai.

O amor de pai é incondicional, é infinito, é humilde, é para todas as idades, porque ele te amou quando; bebe, quando criança, quando adolescente, quando jovem, quando adulto em qualquer idade, esse amor sem o qual seria muito difícil talvez até impossível construir um indivíduo, eu te amo pai, desde o momento que pus meus pequenos olhinhos de bebe em você, te amo por cada beijo, por abraço, por cada presente, por cada momento, por cada atenção, por cada puxão de orelha, por cada conselho, por cada eu te amo, te amo por ter me ensinado tanto.

E hoje aqui só quero dizer, mesmo sabendo que estas palavras jamais alcançariam as dimensões que vocês merecem, dizer na voz de todo e qualquer filho e para todo e qualquer pai, parabéns você é meu pilar, minha força.

Pai, mão amiga, exemplo, herói da minha vida.


Parabéns feliz dia dos pais.



ASS: Michel Mendes Damasceno.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Esse é um povo que resiste

Esse é um povo que resiste.


Por: Michel Mendes Damasceno


Quando terminamos a reunião o dia ainda estava belo, até aquele momento era um sábado esplendoroso. As ruas de Havana belas como sempre, as pessoas passavam apressadas, os carros passavam de um lado para o outro, o sol brilhava esquentando o clima, a brisa vinda do malecón se sentia desde ali. Eu estava na rua 23 uma das mais famosas ruas de havana, e me dirigia junto à um amigo para a Coppellia, uma famosa sorveteria de Cuba.

As pessoas estavam sorrindo e conversando na rua, algumas passavam comendo, outros sentados nas portas das casas conversando. Numa praça próxima a estatua de Don Quixote, idosos praticavam yôga, outros jogavam dominó e outros só conversavam, como era sábado haviam muitas crianças na ruas, passeando com os pais, vindos do malecón ou da mesma Coppellia. Aquele seguramente era um dos bonitos dias que só faz em Havana, quando o sol e o céu parecem brilhar de um modo diferente. Os cebos vendiam livros nas calçadas e haviam carrinhos que vendiam gelo raspado com suco de groselha nas esquinas, em fim Havana brilhava com a intensidade de sempre.

Eu e meu amigo Neto, caminhávamos tranquilos em direção a Coppellia saímos desde da rua G, ainda paramos por um mujito no café G, naquele tempo abrigo dos universitários e intelectuais cubanos, quando chegamos a Coppellia entramos na fila de uma de suas entradas laterais, em uma rua anexa a rua 23. aquele prédio da Coppellia era o central em Havana e tinha muitas entradas, as pessoas faziam as filas desde fora na calçada e de tempo em tempo um funcionário ia até lá para pedir para os próximos entrarem. Quando paramos na fila paramos atrás de uma senhora bem idosa de uns 70 talvez 80 anos que se encontrava acompanhada de duas bonitas crianças, um menino e uma menina, acredito eu que estes eram seus netos, assim que entramos na fila aconteceu uma daquelas mudanças de clima que além de em Cuba eu só vi até hoje acontecer na Bahia,o céu começou a ficar escuro e a trovejar. Infelizmente nesse momento nos demos conta que aquela área que escolhemos para tomar nosso delicioso sorvete era uma área aberta e essas áreas abertas paravam de funcionar em caso de chuva. Em pouco tempo uma funcionária saiu e deu o aviso que se começasse a chover ela teria que encerrar o atendimento até que se normalizasse a situação, em alguns minutos começaram a cair os primeiros pingos de chuva.

Aquele era um prato cheio para alguns jovens que infelizmente existem hoje em Cuba e em especial em havana de começar a reclamar, e não os crítico por estar reclamando, sim pela forma destrutiva, infantil e inconsequente que fazem isso, afinal Cuba é uma democracia onde as pessoas podem falar oque pensam, muito ao contrario do que pregam os meios de comunicação em muitos países do mundo. E alguns aquela tarde resolveram exercer seu direito de reclamar criando uma espécie de pequeno protesto ali em frente a Coppellia, um casal jovem que se encontravam atrás de nós começou a dizer coisas como “Isso é um absurdo, inaceitável, culpa do socialismo, do Fidel” como se fosse culpa do governo que houvesse começado a chover e aquele fosse um espaço aberto, além do mais nem todos os espaços da Coppellia ali eram abertos, haviam áreas cobertas as quais os insatisfeitos ali poderiam muito bem haver se dirigido, porém existe aquela minoria que não perderia aquela oportunidade de colocar-se a falar de modo inconsequente e infantil, logo esse mesmo casal que estava atrás de nós tentando se aproveitar da situação começou a chamar as pessoas a abandonar a fila e ir embora porque aquilo era um “absurdo” , isso tudo claro aos gritos, imaginem agora eu e Neto no meio dessa situação.

Foi nesse momento que algo ocorreu e realmente me marcou muito e que deu um tapa moral na cara daqueles que estavam se aproveitando daquela situação para seus interesses escusos, algo que me ajudou a aprender um pouco mais sobre esse valente e extraordinário povo. Em quanto o casal gritava para que as pessoas abandonassem a fila, os netos da senhora começaram a puxar cada um um braço da senhora, senhora que até o momento apenas observava a situação que ali ocorria, os netos começaram a pedir a atenção da avó que atendia ao casal agitador, quando em um intervalo dos gritos do casal atrás de mim e Neto o menininho gritou pela atenção da avó, oque fez com que nós, a senhora, o casal agitador e a maior parte das pessoas da fila prestássemos atenção no incipiente dialogo entre os netos e a avó. O netinho tendo conseguido a atenção da avó começou a pedir com aquele jeito de criança para irem embora, dizendo mais ou menos assim “avó vamos desistir” a avó olhando bem os dois netinhos se agachou com certa dificuldade por sua idade, e antes de começar a responder deu uma fitada no casal bagunceiro, depois voltando-se para os netos

e os olhando de modo muito terno respondeu-lhes “ não meu querido, nós ainda não vamos embora, porque isso é só uma chuvinha e não é uma chuvinha que nos vai fazer desistir, certo? Nós devemos ficar e resistir porque o povo Cubano é um povo que resiste.” quando eu contemplei aquela cena devo admitir que fiquei emocionado, ainda me emociono de lembrar, ainda me lembro bem do rosto daquela senhora, aquele rosto arrugado da vida, com seus cabelos brancos molhados da água da chuva que caia sobre nós. Para mim o mais impressionante era a forma natural com que ela disse aquilo para o neto, como se o estivesse ensinando a coisa mais comum do mundo, a mais corriqueira, como se disse-se: seja educado, lave as mãos, porém não, o que ela dizia era uma imensa lição de vida, uma lição de vida que aquele povo conhece muito bem, uma lição de vida que serviu para mim. O casal ficou com tanta vergonha que se calou instantaneamente e pouco depois se retirou, eu e meu amigo nos entre olhamos e falamos um pro outro “agora agente vai ficar também” e ficamos, alguns minutos depois a chuva parou a área foi reaberta e voltamos a ser atendidos, naquele fim de dia não consegui parar de pensar naquilo, e algumas horas depois na ELAM enquanto vislumbrava o por do sol refletindo no mar do golfo do México pensava em todo o heroísmo desse povo, sobre a senhora e a lição que havia dado, sobre como esse povo luta há mais de 50 anos para construir um modelo de sociedade diferente um modelo de sociedade livre, justo e soberano, e de quantas dificuldades eles não tiveram que enfrentar para permanecer livres em sua revolução, enfrentar um bloqueio de mais de 40 anos com a maior economia do mundo, enfrentar os ataques terroristas e a guerra suja imperialista dos Estados Unidos da América e da mafia anti cubana em Miami, enfrentar calunias e mentiras dia atrás dia de todos esses meios de comunicação comprometidos com os interesses estrangeiros e das grandes elites, apesar de tudo isso Cuba segue lutando, segue resistindo, seu povo segue firme, e solidário afinal eu estava ali na Escola Latino Americana de Medicina olhando o por do sol no mar do caribe porque aquele era um país solidário, e naquele dia pensei na frase que um grande revolucionário disse uma vez, revolucionário que vim a conhecer melhor em Cuba, Cubano exemplar, o grande líder guerrilheiro Camilo Cienfuegos, disse quando os expedidores do Granma desciam, já sob fogo inimigo, desciam em Cuba para começar aquela revolução. Sob fogo Camilo gritou algo para os soldados que pediam a rendição dos guerrilheiros, sob fogo Camilo gritou algo que desde daquele dia já demonstrava a que era aquela revolução e qual era o caráter daquele povo.

Sob fogo Camilo gritou “Aqui não se rende ninguém” e é por isso, por esse povo que Cuba será sempre um eterno Baragua.


De quien intente apoderarse de Cuba Recogerá ao polvo de su suelo. Anegado al sangre... Sino perece en la contienda!"


Antonio Maceo