Menina
Para a menina que conheci bem de longe, ela para mim anônima,
uma estranha sem nome que vive a desgraça de um povo da qual faço parte.
Me tocou nascer nessa esquina do fim do mundo chamada miséria
me cabe ser aquela que vale menos que a moral dos imorais
sou uma pedra nascida dessa cidade, cidade que não é mais do que muitas solidões juntas
para mim nem essa solidão me cabe, pois desse emaranho de cimento e de metal vivo à margem.
Sou febre ardente de uma doença senil
sou a ferida aberta das pernas de meu povo
sou a inconsciência dos loucos
Nas trincheiras onde perco minhas batalhas não existe sangue
nas trincheiras onde perco minha inocência não existe amor
rasgo minhas mãos buscando o alimento que me trará a paz
rasgo minhas mãos em quanto busco no lixo aquilo que não tenho
vago pelas ruas desertas em quanto a cidade dorme
pela manhã me escondo pois não sou bem-vinda
Levo o tapa na cara e me concentro em em mim para viver
sou aquela que é menos que tudo
uma menina que não e mulher
negra escrava e menina
busco no lixo o que não tenho
dou de mim o que me resta que é meu corpo
pois não sou nada e ninguém notará se eu morrer
Se eu morrer eu não vou ser notícia no jornal
se eu morrer não haverá enterro
meu corpo apodrecera nesse lugar
não haverá lembranças que existi
sera como se eu jamais tivesse existido
Toda noite entrego meu corpo
morro toda noite
sou aquela que vale menos que a moral dos imorais
Sou a imoralidade do seu sono no travesseiro
sou o fruto da inércia
sou a ferida dos olhos dos que não querem ver
é mais fácil fingir que eu não existo
Essa noite venderei meu corpo
numa rua
venderei meus 15 anos
haverá quem compre
toda noite há um lobo que vive nesse emaranhado de desgraças e cimento
Me tocou nascer nessa esquina do fim do mundo chamada Brasil
me tocou ver meu corpo desde cedo, tendido nas trincheiras, trincheiras de uma guerra que luto mas sei que já perdi.
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